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04/06/2020 21:06

FEIRA DE SANTANA, COVID-19 E PLANEJAMENTO DA CIDADE

A Covid 19 afetou a vida de milhões de pessoas no Brasil e no mundo, inclusive, ceifou milhares delas. Claro que não é a primeira grande epidemia planetária, afinal a Gripe espanhola e a Peste dos ratos dizimaram milhões de pessoas em suas épocas. Todavia, diferente do passado, as relações e interações entre os lugares foram modificadas. Hoje, o acontecer cotidiano se realiza de modo mais acelerado; nossas experiências, práticas espaciais e redes geográficas, para usar um termo do professor Roberto Lobato Corrêa, são mais complexas.

Os lugares são apreendidos com o corpo, pois é ele que molda nossas experiências com o mundo. No contexto contemporâneo, a isso se somam experiências associadas a outras escalas. Muitos de nós vivem múltiplas territorialidades cotidianamente, pois nos deslocamos mais para trabalho, estudo, lazer, etc.; e, ao mesmo tempo, o acesso à tecnologia faz com que o acontecer do mundo seja, simultaneamente, um acontecer no lugar. Vejam: um vírus que se difundiu na China e em pouco mais de 5 meses espalhou-se rapidamente pelo globo, porque algumas pessoas e lugares se conectam mais rapidamente que outrora.

Na Bahia, Feira de Santana foi a primeira cidade a oficialmente registrar alguém infectado e, até hoje, 03 de junho de 2020, são 708 casos confirmados pela Secretaria Municipal de Saúde. Recentemente, também foram divulgados os casos por bairros e é importante refletir se, de alguma forma, tais informações indicam alguma regularidade. Para isso, deve-se observar alguns dados sobre a cidade, que vêm sendo trabalhados pelo Grupo de Pesquisa Urbanização e Produção de Cidades na Bahia, da UEFS, que é coordenado por mim, Prof. Dr. Janio Santos, e por uma equipe de pesquisadores.

Os dados possuem limites: os do Censo, porque se referem a 2010 e, fora estimativas municipais, não há informações atuais e de detalhe na escala intraurbana; os da Covid por bairros, por saber que os moradores os informam nominalmente e nem sempre isso condiz com a delimitação oficial das prefeituras. Entretanto, ainda assim, eles permitem algumas leituras que podem orientar políticas de controle da epidemia na cidade.

Se agregar as informações divulgadas, já que muitas áreas não são bairros oficiais de Feira de Santana, e com a exclusão dos 96 que não tiveram registros da localização, são cinco os bairros mais afetados pela Covid-19: Tomba (49), SIM (46), Brasília (40), Papagaio (39) e Calumbi (36). Dois são pericentrais, estão dentro do Anel de contorno, e três mais periféricos (Mapa 1). O mapeamento dos casos demonstra que a concentração é um pouco maior dentro do Anel de contorno, 303 casos, com a exclusão do Tomba, ainda que esse tenha parte de sua área dentro desse Anel.

Há certa correspondência entre as áreas que, em 2010, tinham maior densidade populacional e o volume dos casos. No entanto, é preciso perceber que bairros como o SIM, o Mangabaeira e o Papagaio, que no Censo de 2010 não apresentavam altas densidades, hoje, são bem mais adensados. O Censo de 2020 deverá confirmar essa tendência, em função da expansão imobiliária que ocorreu para esses e outros bairros periféricos, face a construção de inúmeros conjuntos habitacionais e condomínios fechados, com padrões diversos de renda, conforme mostra o Mapa 2.

Bairros como o Tomba, o Calumbi, Rua Nova e parte do Muchila, que no Censo de 2010 apresentaram padrões baixos de renda, tiveram volumes elevados de casos. Contudo, nas áreas mais centrais, com o Brasília e o Santa Mónica, e de expansão imobiliária de médio e alto padrões, como o SIM, a concentração de casos da Covid-19 também ocorreu (Mapa 3). E, apesar da desatualização dos dados, parte do Santo Antônio dos Prazeres e Papagaio, focos de incidência elevada, também é composta por classes de rendas média e alta. Então, há focos da epidemia seja em áreas de moradias populares, seja naquelas de rendas relativamente mais altas.

O Censo de 2010 demonstrou algo que é tendência nas cidades médias, em função da expansão urbana: o aumento do Índice de Envelhecimento (IE) nas áreas centrais. Isso ocorre tanto porque nessas áreas há substituição de domicílios residenciais pelo uso terciário, quanto pelo fato da população relativamente mais jovem tender a se deslocar para morar em áreas mais periféricas. Todavia, um fato chama atenção: nos bairros com percentual da população mais envelhecida o número dos casos não é tão alto. Porém, ao comparar o Mapa 4 com o Mapa 2, nota-se que eles coincidem com áreas de baixa densidade, como o Centro e parte do Capuchinhos e do Ponto Central, e isso pode ser um indicador.

Um fato importante é que o volume de casos parece ter alguma relação com as áreas que, nos últimos anos, se constituíram em novas centralidades de Feira de Santana. Lilian Mota, estudante da UEFS e integrante do Grupo, destacou 4 sub-centros na cidade em sua pesquisa: Cidade Nova, SIM, Caseb e o Tomba. Desses, 3 têm relação direta com áreas de altos índices da Covid-19: Cidade Nova (próximo às áreas de incidência), o SIM e o Tomba. Em função da concentração de estabelecimentos comerciais e de serviços e da maior circulação que isso gera, aliada a menor fiscalização, pode ser que isso influencie na disseminação dos casos.

É importante observar o descompasso entre os dados do Censo de 2010 e a realidade atual de Feira de Santana, uma cidade que apresenta dinâmicas e conteúdos novos nas relações entre seu centro e subcentros e as periferias. Do mesmo modo, padrões de renda e de densidade que o Censo de 2020 deve indicar mudanças, sobretudo, maior ocupação das áreas periféricas, em especial, por camadas de rendas médias e altas. Então, apesar desses limites, os dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde são importantes para fins de planejamento, porque podem subsidiar orientações no controle e na fiscalização e monitorar mais de perto os motivos que levam o crescimento, ou não, do número de casos.

Além de campanhas de divulgação sobre a importância do isolamento social e de hábitos frequentes de higienização como medidas essenciais para evitar a disseminação da Covid-19, o monitoramento mais de perto das áreas de alto fluxo de pessoas, a exemplo de eixos comerciais do Tomba, Cidade Nova e do Sim, mas também do Centro, pode ser um mecanismo eficaz para proteção coletiva.

A população precisa saber que a Covid 19 é uma epidemia mundial e que o número de casos no Brasil é bastante elevado. Até hoje, mesmo com os investimentos em pesquisas, não há cura. Portanto, as medidas de proteção acima citadas são determinantes para: o controle na curva de contágio, não superlotar hospitais e UTI’s e, sobretudo, evitar o aumento no número de óbitos. Portanto, a luta contra a epidemia é um trabalho coletivo, que envolve esforços do poder público e a consciência individual de cidadão.


Janio Santos
Doutor em Geografia, Professor Pleno (DCHF/UEFS)
Professor Permanente (Planterr/UEFS)
Professor Colaborador (PPGeo)/UESB)
E-mail: jljsantos@uefs.br 


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